segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Sopros de vida

Sopros de vida

Simone Pessoa - Colunista 05/06/2010 14:00


Reservei a noite do último domingo para ir ao teatro Celina Queiroz assistir a Sopros de Vida, uma peça estrelada por nada menos que Nathalia Timberg e Rosamaria Murtinho, grandes damas da dramaturgia brasileira. O enredo propunha o embate entre uma mulher e a ex-amante de seu ex-marido. Com título, tema e elenco desse porte, o programa se tornou irresistível. Mandei comprar os ingressos com antecedência. Contudo, muita gente teve a mesma intuição e, por isso, tive que me conformar com lugar na antepenúltima fila.

Embora fosse poltrona marcada, resolvemos, eu e meu marido, chegar com antecedência para evitar fila de carros e a rotineira disputa por vaga no estacionamento – de uns anos para cá, temos adotado essa estratégia, que tem nos poupado de atropelos e atrasos.

Com tempo de sobra, pagamos dois reais por um saco de pipocas e sentamos no banco de madeira em frente a uma fonte, onde banhistas esculpidas se deliciavam ao sabor das águas. Ao redor, árvores – castanholas, bambus, eucaliptos e outras que desprendiam cipós – compunham o cenário bucólico e aconchegante. Os aromas das plantas completavam atmosfera enlevada do jardim.

Usufruímos do espaço encantado até a hora de entrarmos para assistir ao espetáculo, quando nos demos conta de que a sala já estava lotada. Tomamos nossos assentos e apreciamos a cenografia da peça descortinada para o público: o interior de uma casa elegante, com direito a biblioteca e uma estilosa escrivaninha. Tudo muito primoroso.

Quando as estrelas entraram no palco, a plateia silenciou para ouvi-las. Logo de início, percebemos que a acústica estava prejudicada. Por mais que as artistas empostassem a voz, quem sentou nas últimas fileiras teve que se esforçar para captar as palavras. Além disso, nada de especial acontecia no desenrolar do drama. Um morno (e quase inaudível) diálogo entre duas mulheres sobre um passado em torno de um homem comum se arrastava diante de nossos olhos. Apesar da performance das atrizes, a monotonia foi se apoderando da situação. Não havia dinamismo na trama, nem repentes. O humor embutido nas falas era por demais sutil, talvez adequado a uma plateia inglesa, mas não bastante para fazer vibrar um público latino como o nosso.

Resultado: uma cena insípida, enfadonha. Cheguei a cochilar e creio outros espectadores também. Enquanto me revolvia na poltrona com impaciência, lembrei que lá fora, ao lado da fonte, o espetáculo era bem mais alvissareiro e o preço mais compensador.

Já decidi: da próxima vez, dedicarei meus sopros de vida exclusivamente às pipocas e ao jardim.

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