sexta-feira, 27 de agosto de 2010

HIV

A transmissão do HIV está longe de ser um acontecimento relâmpago. O intervalo de tempo necessário para que o vírus recém-transmitido consiga estabelecer um foco no organismo, a partir do qual a infecção se tornará crônica, é suficientemente longo para proporcionar a oportunidade de combatê-lo com antivirais capazes de destruí-lo.

A chamada profilaxia pós-exposição nasceu no início dos anos 1990, época em que contávamos apenas com o AZT e mais dois ou três antivirais. As primeiras tentativas foram realizadas em médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório acidentalmente feridos por agulhas, ou que entraram em contato íntimo com líquidos corpóreos infectados.

Em 1997, um pequeno estudo demonstrou que a administração de AZT, nesses casos, reduzia em 81% a probabilidade de transmissão do vírus. Apesar das limitações científicas desse estudo, a profilaxia medicamentosa da infecção pelo HIV tornou-se procedimento aceito por todos. A partir de 1996, com o aparecimento dos novos antivirais ela ganhou mais eficácia e indicação nas seguintes situações:

1 – Exposição ocupacional

Os índices de transmissão por meio de picadas com agulhas infectadas são baixos: em média 0,3%. Nos contatos acidentais de líquidos corpóreos infectados com as mucosas dos olhos e da boca ou com a pele ferida do profissional, mais baixos ainda: em média 0,09%.

Alguns fatores, no entanto, aumentam o risco: Aids avançada no paciente-fonte da infecção, agulhas que foram utilizadas como cânulas de veias no paciente-fonte, ferimentos profundos e a presença de sangue visível no instrumento.

A maioria dos clínicos usa como critério para indicar a profilaxia, o aparecimento de sangue no local da picada acidental.

2 – Exposição não-ocupacional

O risco de transmissão do HIV varia com a natureza da exposição: de 1% a 30% nas relações anais receptivas, de 0,1% a 10 % nas relações anais insertivas e nas vaginais receptivas, de 0,1% a 1% nas vaginas insertivas. Embora haja descrições de infecção pelo HIV em pessoas que praticaram apenas sexo oral, o risco desse tipo de prática é bem mais baixo.

A probabilidade de transmissão varia com a presença ou ausência de doenças venéreas, ulcerações genitais (herpes, sífilis), circuncisão, displasia anal ou do colo uterino, com a virulência e com a concentração do vírus (carga viral) presente nas secreções sexuais.

A probabilidade de adquirir HIV ao compartilhar seringas e agulhas contaminadas é bem mais alta: 0,67% em cada injeção.

As características do paciente-fonte são fundamentais para definir a necessidade de profilaxia.

Na exposição ocupacional é mais fácil, porque o paciente-fonte pode ser testado rapidamente, por meio dos testes Elisa de alta sensibilidade. Resultado negativo afasta a necessidade de profilaxia. Se, por qualquer motivo, houver demora para obter o resultado, a profilaxia deve ser iniciada até que o mesmo se torne disponível.

Nos casos de exposição sexual ou ao compartilhar seringas e agulhas em que a condição do paciente-fonte for desconhecida, a profilaxia costuma ser indicada nas situações em que existir maior risco: homens que fazem sexo com outros homens ou com homens e mulheres, pessoas que fazem uso comercial do sexo, que fizeram sexo com usuários de drogas ilícitas intravenosas, ex-presidiários, estupradores, habitantes de países nos quais os índices de prevalência do HIV sejam superiores a 1% da população, e naqueles que tiveram contato sexual desprotegido com membros desses grupos.

Quanto mais rapidamente for administrada a profilaxia, melhor será o resultado. Dados experimentais indicam que os índices de infecção são mais baixos quando ela é iniciada nas primeiras 36 horas. Um estudo mostrou que filhos de mães infectadas apresentam menor chance de contrair o HIV quando tratados nas primeiras 48 horas depois do parto.

O esquema de tratamento precisa conter pelo menos duas drogas, mantidas por um período de 28 dias.

Dr.Drauzio VARELLA

Enxaqueca

A enxaqueca é uma condição cerebral crônica caracterizada por crises de dor de cabeça pulsátil, de média ou forte intensidade, eventualmente associada a náuseas, vômitos, fotofobia e intolerância aos ruídos (fonofobia).

Em cerca de um terço dos casos, as crises são acompanhadas por sintomas neurológicos, geralmente visuais, conhecidos como auras.

O distúrbio ocorre em pessoas geneticamente suscetíveis. A Organização Mundial da Saúde calcula que no mundo existam 324 milhões habitantes nessas condições.

As crises são mais frequentes e mais intensas no sexo feminino. O risco de ocorrerem durante a vida é de 43% nas mulheres e de 18% nos homens. Ao redor de 25% dos pacientes apresentam mais de 3 dias de cefaléia por mês.

Os sintomas costumam instalar-se na adolescência ou no início da vida adulta. Embora os ataques sejam autolimitados, os portadores de enxaqueca correm risco mais alto de complicações vasculares, como derrames cerebrais e pré-eclâmpsia.

As causas da enxaqueca não estão completamente claras. A teoria mais aceita é a de que terminações nervosas sensitivas que inervam os vasos das meninges (membranas que protegem o cérebro e a medula espinhal) liberam substâncias que provocam dilatações das artérias meníngeas, acompanhadas de inflamação e extravasamento de proteínas.

Esses eventos acabam por ativar os neurônios de diversos centros cerebrais, causando a dor e as alterações neurológicas características do quadro. As náuseas e os vômitos surgem como consequência da estimulação do sistema nervoso autônomo. A sensibilidade à luz, aos odores e aos sons resulta de anormalidades nos neurônios que modulam as informações sensórias.

Muitas vezes, os episódios podem ser controlados com analgésicos comuns (entre eles o ácido acetilsalecílico), eventualmente associados à ergotamina, à cafeína e à metoclopramida (antiemético).

O tratamento dos casos que respondem mal a essas medidas deve ser feito com uma classe de drogas que recebe o nome de triptanos. Existem sete delas disponíveis no mercado. Entre as vantagens estão a baixa incidência de efeitos colaterais e o mecanismo mais específico de ação.

A resposta ao tratamento é mais eficaz, quando é iniciado logo que surgem os primeiros sintomas. O efeito começa depois de 20 a 60 minutos, dependendo do triptano escolhido.

A maioria deles pode ser administrada novamente depois de 2 a 4 horas, se houver necessidade. Aproximadamente um em cada três pacientes não responde ao triptano prescrito. Nessas situações vale a pena substituí-lo por outro triptano ou associá-lo a antieméticos e anti-inflamatórios.

Os triptanos são contraindicados em portadores de hipertensão não controlada, de insuficiência hepática ou renal ou de doença coronariana. Seu uso na gravidez deve ser avaliado com critério nas mulheres que não respondem a outros tratamentos, porque embora não provoquem defeitos genéticos graves, não é possível excluir a possibilidade de malformações menos aparentes.

Da mesma forma que outras drogas empregadas no tratamento das enxaquecas agudas, a administração frequente de triptanos está associada ao desenvolvimento da chamada cefaléia por uso excessivo de medicamentos, na qual o abuso de analgésicos leva a um ciclo vicioso. Por essa razão, o ideal é que os triptanos tenham seu uso limitado à média de dois dias por semana.

Os principais efeitos colaterais são formigamentos nas mãos e pés, endurecimento transitório do pescoço e sensação de opressão no peito não associada às coronárias.

De acordo com o Colégio Americano de Médicos, o tratamento de primeira linha das enxaquecas é anti-inflamatório associado a antiemético, quando há náuseas; os triptanos são indicados apenas quando não houver resposta.

Já a Federação Européia de Sociedades Neurológicas recomenda triptanos ou anti-inflamatórios como primeira escolha.

Dr.Drauzio Varella

Braille

Louis Braille chora
Markiano Charan Filho - 04/03/2010


No mês de setembro, durante o seminário sobre os 200 anos de nascimento de Louis Braille, em Brasília, DF, foram muitos os protestos e reclamos de pessoas e entidades à decisão do Ministério da Educação (MEC) de, a partir deste ano, o Programa Nacional do Livro Didático em Braille, do Fundo Na cional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), não imprimir mais livros didáticos em braille, material indispensável para estudantes cegos e com visão subnormal.

Várias vozes se levantaram, mas não houve, por parte do Governo Federal, uma explicação convincente. Contudo, quaisquer que sejam as razões, elas podem ser consideradas inadequadas. Porque, lembrando Louis Braille, “sem livros, os cegos não podem realmente aprender”. Quando afirmou isso, ele estava absolutamente certo, pois a leitura é um meio dos mais eficazes de se adquirir conhecimento e se desenvolver espírito crítico.

As comemorações e homenagens a esse grande gênio perdem seu brilho. De que valem se seu invento não está atingindo o objetivo principal? Não se quer aqui desqualificar o que se fez para reverenciar sua memória. Afinal, sua invenção merece todas as glórias possíveis. Entretanto, todos nós, cidadãos conscientes, e principalmente o poder público, devemos reverência a Louis Braille por meio de ações práticas, que levem seu sistema de leitura e escrita ao alcance das pessoas cegas.

Se Braille estivesse vivo certamente choraria diante dessa triste realidade, apesar das condições tecnológicas atuais permitirem e facilitarem a impressão em braille.

É preciso que as autoridades brasileiras tomem medidas urgentes, para que se retome a produção do livro didático, um produto de primeira necessidade, que faz parte da cesta básica do deficiente visual. Se não podem fazê-lo por meio de seus próprios órgãos, que o façam por meio de entidades capacitadas para isso.

Somente quando o livro didático voltar às mãos dos cegos brasileiros será possível afirmar que se caminha para tornar reais as ideias iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade.

Markiano Charan Filho é diretor-presidente da Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva).

Crianças

Criança chata para comer é um sufoco: tira a paciência dos pais a ponto de transformar a hora das refeições num martírio. Elas fazem escândalo, fecham a boca, sujam a cozinha toda, cansando a si mesmas e mais quem estiver por perto. Comer fora então é uma sessão. A má notícia: isso é normal e, dificilmente, você vai escapar deste drama. E o lado bom da história: tem como resolver antes que seus cabelos fiquem todos brancos ou você fique careca. Para ajudar você nessa missão, fomos atrás de duas especialistas cheias de dicas para lá de eficazes. A nutricionista Roberta Stella e a psicóloga Adriana Araújo, que ensinam como abrir o apetite do seu pequeno.
Alimentação infantil - Foto: Getty Images

Horários regrados: se o almoço na sua casa é ao meio-dia, nem pense em dar uma mamadeira para a criança perto desse horário. Claro que o apetite vai sumir. As refeições realizadas junto à família incentivam a criança a comer e despertam o apetite dela para alimentos diferentes. Por isso, é importante incluir sempre sabores novos no cardápio e experimentá-los na companhia do seu filho. Nessa hora, você aproveita para mostrar como existe uma infinidade de opções para substituir a dupla bife e batata-frita, como os peixes, que são uma opção saudável de proteína e rica em nutrientes.

Prato do tamanho certo: durante o crescimento do bebê, é normal observar mudanças na quantidade de alimentos ingerida. No primeiro ano de vida, a criança apresenta um rápido desenvolvimento. Após completar um ano, a velocidade de crescimento diminui e, consequentemente, a quantidade de alimentos ingerida tende a ser menor. Por isso, não vale ficar preocupada se seu filho começa a ingerir menos alimentos do que você espera. O melhor mesmo é manter um acompanhamento com um pediatra para verificar se o crescimento dele está adequado, minimizando a ansiedade e as expectativas diante da quantidade de alimentos ingeridas por ele.

Dê exemplo: os hábitos alimentares da família servem de exemplo para a criança. Se as pessoas ao redor consomem refrigerantes, frituras, salgadinhos e, oferecem à criança frutas, sucos, legumes, certamente, ela terá mais resistência para aceitar esses alimentos que não são hábitos da família. O mesmo vale na hora de ampliar o paladar deles além do trivial. É dia de passear no shopping? Que tal trocar a pizza ou o lanche gorduroso pela comida japonesa, que está cheio de vegetais e peixes nas receitas?
Menina na cozinha- Foto: Getty Images

Espante a preguiça: parece loucura, mas algumas crianças têm preguiça de comer. Entretidas com outras atividades, elas não sentem a menor vontade de interromper a brincadeira para exercitar a mastigação ainda mais quando o prato está muito cheio e o tempo perdido pode ser grande. Para ajudar nesse problema é ideal usar o aumento gradual na quantidade de comida e gratificações logo após as refeições. Brincadeiras também são bem-vindas.

Recompense o empenho dele: misturar alimentos pode dar certo num momento inicial ou com as crianças mais trabalhosas. Para cada quantidade do alimento que ele gosta, adicione um pouquinho do menos desejado. "As crianças acabam comendo tudo, sem perceber", afirma a psicóloga Adriana Araujo.

Doces do bem: a paixão precoce pelos doces é comum também na infância. É de se esperar que a criança tenha um paladar mais aguçado para os doces. Use isso a favor de vocês, oferecendo alimentos doces saudáveis, como as frutas. "A oferta de chocolates, bolos e tortas deve ser esporádica para que a criança perceba que esses alimentos não devem ser consumidos frequentemente", afirma a nutricionista Roberta Stella.

Cozinhem juntos: prepare o menu com a ajuda da criança. Peça sugestões para ela, mas não deixe de direcionar o cardápio. Use a oportunidade para mostrar a importância de balancear as refeições, consumir alimentos saudáveis e restringir aqueles mais calóricos e com menor qualidade nutricional.
Educação alimentar: evite os estimulantes de apetite nos primeiros anos de vida. Eles fazem você desperdiçar uma ocasião especial para desenvolver o paladar do seu filho. Acredite: quando tiver fome, ele vai procurar comida. E cabe a você oferecer opções saudáveis nessa situação. Só fique atenta para os eventos que podem prejudicar a vontade de comer, como o desenvolvimento da dentição.

Regrinhas básicas:

1. Tenha horários certos para as refeições;
2. Descarte a ideia de beliscar entre as refeições;
3. Evite comer na frente da televisão ou computador;
4. Dê o exemplo para a criança, cultivando bons hábitos alimentares;
5. Tenha sempre frutas, legumes e verduras em casa;
6. Só use as recompensas alimentares em situações de emergência;
7. Não force a criança a se alimentar. Quando tiver fome, ela vai procurar alimento.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Demência avançada

A degeneração das funções cognitivas é o tributo mais cruel que a natureza cobra dos que teimam viver mais tempo. Hoje em dia, é difícil encontrar família em que não haja alguém com Alzheimer ou outro quadro demencial, incapaz de reconhecer filhos e netos e de executar as tarefas cotidianas mais elementares.

Ao contrário dos avanços ocorridos em outras doenças degenerativas como as cardiovasculares e o câncer, no entanto, a trajetória clínica dos que chegam aos estágios mais avançados de demência, as opções de tratamento, o emprego de intervenções médicas agressivas e inúteis e a carga de sofrimento enfrentada por eles, costumam ser mal avaliadas.

Susan Mitchell e colaboradores acabam de publicar um estudo conduzido em 22 “casas de repouso” para idosos da região de Boston, que ajuda a entender melhor a natureza terminal das demências avançadas. Nele, 323 pacientes foram acompanhados por um período mínimo de 18 meses.

Os critérios para inclusão foram os seguintes:

1) Idade igual ou maior do que 60 anos;

2) Escore 5 ou 6 na Escala de Perfomance Cognitiva, teste no qual os portadores de funções cognitivas normais têm pontuação zero, enquanto os que se encontram nas fases mais avançadas de deterioração recebem 6;

3) Estádio 7 na Escala de Deterioração Global, fase em que as deficiências cognitivas são muito graves (incapacidade de reconhecer familiares), a comunicação verbal se torna mínima, a dependência para realizar atividades rotineiras é total, surge incapacidade para andar, incontinência urinária e fecal.

Embora muito enfermos, esses pacientes representam parcela significante dos portadores de demência, em qualquer país. No período de 18 meses, a mortalidade atingiu 54,8%. A sobrevida média foi de 1,3 ano. As principais causas de óbito foram pneumonias, episódios febris e distúrbios alimentares.

Em apenas 6 meses, a mortalidade chegou a 25%. Morreram cerca de 46% dos que tiveram pneumonia, 44% dos apresentaram episódios febris e 28% daqueles com distúrbios alimentares.

Nos últimos 3 meses de vida, 40% dos residentes receberam algum tipo de intervenção médica mais agressiva: internação em pronto-socorro, hospitalizações, nutrição parenteral (por via intravenosa) ou colocação de sonda gástrica.

Os que ficaram menos sujeitos a essas intervenções de utilidade questionável foram aqueles com familiares ou responsáveis informados e capazes de entender a natureza terminal do quadro de demência.

Episódios de falta de ar, dor, agitação, aparecimento de escaras, aspiração de líquido através das vias aéreas, ocorreram em 40% a 50% dos casos estudados, e se tornaram mais frequentes nos últimos dias de vida.

A importância desse trabalho é a de documentar que, nos estádios mais avançados, as demências devem ser entendidas como condições capazes de levar os pacientes à fase terminal, independentemente da existência de outras enfermidades. A maioria das mortes não é causada por eventos agudos, como infartos do miocárdio, derrames cerebrais, câncer ou descompensação de insuficiências cardíacas; o quadro demencial é a patologia de base responsável pelas complicações que levam ao óbito.

Com uma mortalidade de 25% em seis meses e sobrevida média de pouco mais de um ano, a expectativa de vida na demência avançada equivale à dos pacientes portadores de alguns tipos de câncer disseminado ou de insuficiência cardíaca grave (estádio IV).

Enquanto o índice de mortalidade das doenças mais comuns tem diminuído nas últimas décadas, o das demências continua a aumentar. Médicos, familiares e os responsáveis pelo planejamento da assistência médica devem estar preparados para enfrentar o desafio de cuidar dos que chegam às fases demenciais mais avançadas, poupando-os de intervenções inúteis que sobrecarregam o sistema de saúde e causam ainda mais sofrimento

Dr.Drauzio Varella

Endometriose

Há mulheres que comem o pão que o diabo amassou, quando chega a menstruação. Sentem dores fortes, mal estar e muita irritação.

Muitas delas são portadoras de endometriose, mal que acomete pelo menos 5% a 10% das que estão em idade reprodutiva. No caso das adolescentes com esses sintomas; esse número pode atingir 40% a 50%.

O que caracteriza a endometriose é a presença de implantes de um tecido bastante semelhante ao endométrio (a camada que reveste a parte interna do útero) na cavidade abdominal ou nos ovários.

O quadro clínico é caracterizado pela tríade: dor crônica na região pélvica, infertilidade e dor à penetração profunda durante as relações sexuais. Podem ocorrer ainda alterações do ritmo digestivo e urinário durante o período menstrual.

Apesar dessa sintomatologia, estudo feito no Hospital das Clínicas de São Paulo pela equipe do Dr. Maurício Abrão mostrou que, em 44% dos casos, o diagnóstico só é feito cinco anos ou mais depois dos primeiros sintomas.

Há fatores genéticos envolvidos na gênese: mulheres com familiares portadoras de endometriose têm risco sete vezes maior de desenvolvê-la.

O distúrbio pode instalar-se como consequência de alterações anatômicas ou bioquímicas.

É exemplo de endometriose relacionada a alterações anatômicas, a que surge em jovens portadoras de obstruções vaginais que dificultam o fluxo menstrual, forçando os restos de endométrio a percorrer o caminho retrógrado, em direção às tubas uterinas, aos ovários e à cavidade abdominal.

Constituem exemplo de alterações bioquímicas, os casos ocorridos entre mulheres que foram expostas durante a vida intrauterina a doses altas de estrógenos, administradas a suas mães.

Existem três formas principais da doença: peritonial (quando os implantes se estabelecem na superfície interna da cavidade pélvica e dos ovários), endometriomas (quando surgem cistos ovarianos complexos revestidos por tecido endometrioide) e nódulos retovaginais (quando o tecido endometrioide forma nódulos sólidos no espaço entre o reto e a vagina).

Há quatro hipóteses principais para explicar a endometriose:

1) Fragmentos do endométrio que deveriam ser eliminados pela menstruação fariam o trajeto retrógrado na direção da cavidade abdominal;

2) As lesões surgiriam na cavidade abdominal como resultado da persistência de células primitivas, que se diferenciariam em tecido semelhante ao do endométrio;

3) As células endometriais presentes no líquido menstrual migrariam para a cavidade abdominal através dos vasos sanguíneos ou linfáticos;

4) Células-tronco da medula óssea cairiam na circulação e se diferenciariam em tecido endometrioide formando os implantes pélvicos.

Há evidências de que a repetição dos ciclos ovulatórios tenha importância na formação e persistência dos implantes, uma vez que os sintomas geralmente desaparecem na menopausa, a multiparidade está associada à diminuição do risco de desenvolver a doença e a inibição da função ovariana com medicamentos reduz as dimensões dos nódulos, evita novos implantes e alivia os sintomas.

O diagnóstico é feito a partir das queixas, do exame ginecológico (que pode revelar a existência de nódulos entre a vagina e o reto, ovários aumentados e dolorosos ao toque) e do ultrassom. Implantes menores situados na cavidade abdominal podem ser visualizados pela laparoscopia.

O tratamento clínico pode ser feito com o uso da pílula anticoncepcional (contendo estrogênio e progesterona ou apenas progesterona), através da inibição da função ovariana ou do emprego de drogas pertencentes ao grupo dos inibidores da aromatase, enzima importante para a formação de estrogênio.

O tratamento cirúrgico quase sempre é feito pela laparoscopia que permite retirar os implantes ou vaporizá-los por meio de raios laser ou aplicação de corrente elétrica. Cirurgias convencionais são indicadas apenas em casos selecionados.
Dr.Drauzio Varella

Os genes e a alma humana

A maioria de nós acredita na existência de uma alma imortal, característica inequívoca da condição humana. Pondo a imortalidade de lado, pois se trata de questão de fé, seria cabível dizer que o conjunto de genes contidos no genoma constituiria o substrato bioquímico da alma humana? Vejamos.
Na fertilização, os genes que vêm com o espermatozóide formam pares com os que estão no óvulo, formando o zigoto (ou ovo), que vai se multiplicar e dar origem ao embrião. Cada um dos pares materno-paterno de genes será responsável por determinada característica do futuro ser, da cor dos olhos à probabilidade de apresentar leucemia aos quatro anos.
Caracterizar o momento em que se forma um ser humano provoca discussões acaloradas, a partir de pontos de vista inconciliáveis.
Embora espermatozóides e óvulos sejam células vivas programadas pela seleção natural para exercer a função de constituir um novo indivíduo, nunca ouvi alguém atribuir o início da vida humana ao instante em que essas células reprodutivas são formadas no organismo. Fosse assim, teríamos desenvolvido técnicas para colher e preservar em locais sagrados todos os óvulos não fecundados e, do ponto de vista legal, a masturbação masculina seria condenada como ato de genocídio.
É comum, entretanto, considerar que o instante da criação coincide com a fecundação. Por acreditar nessa idéia, tantos defendem a opinião de que ao zigoto devem ser garantidos todos os direitos da pessoa humana. A lógica é a de que espermatozóide e óvulo, ao misturarem seus conteúdos genéticos, disparam um processo irreversível, que fatalmente resultará numa criança.
A ciência pode contribuir para tentarmos esclarecer que processo é esse. Quando os genes da mãe se juntam aos pares com os do pai, de fato emerge um programa genético (como os programas de computadores) que vai dirigir por conta própria o desenvolvimento do novo ser, da primeira divisão celular à formação do último fio de cabelo. Esse programa genético desempenhará seu papel de condutor durante toda a gestação e se manterá estável pelo resto da vida do futuro ser. Contentes ou furiosos, carregaremos até a morte as características condicionadas pelos genes que herdamos de nossos progenitores.
Se imaginarmos a condição humana já embutida no zigoto, podemos considerar o genoma como a estrutura molecular correspondente à alma humana? Se concedermos tal "status" ao genoma, deveremos considerar, então, que animais como os chimpanzés, cujos genes são em mais de 98% idênticos aos nossos, têm alma parecida com a nossa? Caso contrário, com o avanço da tecnologia, quantos genes nossos precisaremos transplantar para que um chimpanzé adquira alma?
Como alternativa a esses dilemas, outros partem da constatação de que a vida na Terra resulta obrigatoriamente de um programa genético individual, específico para cada espécie, que evoluiu a partir dos mesmos ancestrais, através de mecanismos de competição e seleção natural. O que nos faz humanos não é a forma do corpo, mas a atividade do sistema nervoso central. Nesse sentido, somos mesmo um experimento original da natureza. Não existe outra espécie com neurônios capazes de executar operações cognitivas da complexidade das nossas e, principalmente, não há outro animal que conte com algo semelhante ao que chamamos consciência.
Nessa linha de pensamento, a vida se iniciaria com a formação do zigoto ou mesmo antes, mas a condição humana só começaria a ser esboçada ao surgirem os primeiros espasmos de atividade cerebral, lá pela décima segunda semana de gestação, fase em que o embrião pesa menos de 15 gramas. Antes disso, seríamos apenas um grupamento de células não muito diferente dos embriões das aves ou dos sapos ("a ontogenia recapitula a filogenia").
Essas visões, para as quais a natureza humana se deve à célula-mãe que nos deu origem ou ao sistema nervoso resultante de suas divisões, atribuem inadvertidamente ao genoma a responsabilidade de encerrar a essência humana.
Embora a biologia molecular possa nos ajudar a entender nossa constituição orgânica e as diferenças e semelhanças entre nós e os demais seres vivos, através dela jamais explicaremos o mistério mais profundo da condição humana: como emerge a consciência?
Nas fases iniciais do crescimento embrionário, os primeiros neurônios se multiplicam sem parar e desenvolvem prolongamentos celulares para se conectar com outros neurônios. Lá pelos três ou quatro meses de gestação, os neurônios que não conseguiram formar conexões sólidas com seus pares disparam um programa interno de morte celular (apoptose). Nesse suicídio coletivo sem paralelo, morrem mais neurônios do que os 100 bilhões que sobrevivem para formar o sistema nervoso adulto.
A principal característica dos circuitos neuronais é a plasticidade. Ao nascer a criança, a circuitaria de neurônios sobrevivente ao suicídio em massa estará pronta para se moldar à luz da experiência; sem ela, o sistema nervoso não desenvolve atividade plena. Se luz não chegar aos olhos nos primeiros meses de vida, nem sons aos ouvidos, nem cheiro às fossas nasais, o resultado será cegueira, surdez e anosmia, apesar da integridade inicial das redes neuronais.
O que chamamos a alma humana liga-se à emergência de uma consciência pessoal, única, sem a qual a individualidade não existe. E a consciência é algo que transcende a estrutura do próprio sistema nervoso, porque não está aprisionada em nenhuma circuitaria de neurônios, muito menos pode ser reduzida à expressão do genoma contido num zigoto. Ela nasce da construção de uma narrativa pessoal enriquecida por fatos culturais que dependem da história de vida de cada um de nós.
Dr.Drauzio Varella